Conteúdo audiovisual reúne os principais momentos dos primeiros encontros realizados pela FESPSP em parceria com o site Outras Palavras; discussões são dedicadas à política fiscal, à reindustrialização, ao trabalho, à previdência e à segurança pública
A Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) passa a disponibilizar semanalmente em seu canal no YouTube uma coleção de vídeos contendo os principais momentos dos encontros do Ciclo de Seminários Desafios para Outro Brasil, realizado em parceria com o site Outras Palavras. Abertos ao público, os debates reúnem especialistas para discutir temas centrais do cenário político, econômico e social brasileiro.
O ciclo prevê dez reuniões ao longo de 2026 e busca contribuir para a formulação de propostas capazes de enfrentar problemas estruturais do país, ampliar direitos, reduzir desigualdades e fortalecer a democracia. Os encontros presenciais são realizados no campus da FESPSP, na Vila Buarque, com transmissão online. Agora, além da íntegra dos eventos, estarão disponíveis os principais destaques das apresentações de cada participante, assim como um resumo dos seminários, ampliando o alcance dos debates.
Segundo um dos articuladores da iniciativa, o médico e presidente do Conselho Superior da FESPSP, Ubiratan de Paula Santos, os seminários procuram aprofundar o diálogo com a sociedade civil em torno de temas cruciais para o país. “O objetivo é contribuir para o debate nesse período eleitoral mas também para a constituição de um governo que leve em conta as limitações e as necessidades dos novos desafios para melhorar a vida do povo brasileiro”, explica.
Os cinco primeiros encontros abordaram o fim do arcabouço fiscal e a retomada do investimento público, as estratégias para a reindustrialização brasileira, a reconstrução dos direitos trabalhistas, o papel da previdência na proteção social e a formulação de um novo modelo de segurança pública.
A socióloga Maria Silvia Portela de Castro, vice-presidente do Conselho Superior da FESPSP e também uma das organizadoras da programação, reforça a proposta de estruturar e propor um plano para construir um Estado de bem-estar social pleno. “Os eventos não têm um caráter eleitoral, mas, sim, têm o objetivo de promover um projeto para o Brasil ao fomentar a discussão sobre o desenvolvimento sustentável do nosso país”, afirma.
Antonio Martins, editor do site Outras Palavras e outro integrante da organização do ciclo, acrescenta que os debates procuram estruturar perspectivas concretas para o futuro. “Se não criarmos o horizonte do que é preciso ser feito, do que o país tem condições concretas de realizar, nunca vamos conseguir transformar essa correlação de forças que trava o progresso econômico e socioambiental”, diz o jornalista.
O ciclo chega ao sexto encontro nesta terça-feira (14/7) com o debate sobre soberania energética e integração nacional. Participam William Nozaki, cientista político, mestre em desenvolvimento econômico e gerente executivo de Transição Energética da Petrobras, e Ildo Sauer, engenheiro, professor titular do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-USP) e ex-diretor de Negócios em Gás e Energia da Petrobras. Acompanhe aqui a transmissão ao vivo.
Confira abaixo os principais destaques dos encontros, que serão divulgados semanalmente; a íntegra de cada evento já está disponível na playlist do ciclo de seminários, no canal da FESPSP
Política fiscal e investimento público
Realizado em 24 de março, o primeiro encontro do ciclo de seminários teve como tema o “Fim do Arcabouço Fiscal e a Retomada do Investimento Público”. Mediado pelo jornalista Antonio Martins, o debate examinou os obstáculos impostos pelas políticas de austeridade ao desenvolvimento brasileiro, à distribuição de renda e à ampliação da democracia.
Participaram como palestrantes os economistas Ladislau Dowbor e David Deccache e a deputada federal Sâmia Bomfim (PSol-SP).
Consultor de agências da ONU, Dowbor abriu o seminário abordando a financeirização da economia e a apropriação do excedente social. O professor argumentou que a expansão do dinheiro imaterial, impulsionada pelas tecnologias digitais e pelos meios eletrônicos de pagamento, tornou menos visíveis os mecanismos de transferência de renda para grandes agentes financeiros.
“A apropriação do dinheiro dos outros sempre esteve presente na história econômica, mas ganhou nova escala com a revolução digital. Podemos citar como exemplo o pagamento por meios eletrônicos e a cobrança de taxas por operadoras e controladores financeiros. Esse processo ajuda a explicar o crescimento acelerado da desigualdade contemporânea”, disse ele.
Dowbor também analisou os efeitos dos juros elevados. O economista observa que a remuneração dos títulos públicos oferece ganhos de baixo risco aos detentores de capital e desloca recursos que poderiam financiar políticas públicas. Confira os destaques da palestra de Dowbor aqui.
Já Deccache abriu sua fala criticando a forma como o debate fiscal costuma ser apresentado à população. Na opinião do economista, a complexidade da política macroeconômica é frequentemente reduzida a comparações com o orçamento de uma família ou de um pequeno estabelecimento comercial.
“Essa comparação reforça a ideia de que bastaria aumentar a receita onde dá e cortar onde dá para equilibrar as contas, desconsiderando as relações entre gasto público, setor privado, emprego, investimento e desenvolvimento”, afirmou Deccache. Veja os destaques da fala do economista aqui.
A parlamentar Sâmia Bomfim, por sua vez, acrescentou que as políticas de austeridade afetam as condições de vida da população e podem favorecer o avanço da extrema direita ao enfraquecer organizações populares, partidos, movimentos e sindicatos.
“Os rumos econômicos têm efeito direto sobre os direitos sociais assegurados pela Constituição de 1988, especialmente nas áreas da saúde e da educação, que ficam ameaçadas pela lógica predatória do arcabouço fiscal, particularmente nas áreas de saúde e educação”, acrescenta a parlamentar. Confira o resumo da palestra da deputada aqui.
Reindustrialização como estratégia de desenvolvimento
O segundo encontro do ciclo, realizado em 7 de abril, abordou as “Estratégias para a reindustrialização brasileira”. A mesa de debates reuniu o economista Antonio Prado, conselheiro da FESPSP e vice-presidente do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP); o sindicalista Aroaldo Silva, secretário-executivo do Consórcio de Municípios do ABC Paulista; e o engenheiro Pedro Celestino, ex-presidente do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro. O encontro contou com mediação da socióloga Maria Silvia Portela de Castro e comentários do médico Ubiratan de Paula Santos, presidente do Conselho Superior da FESPSP.
Santos argumentou que o processo de reindustrialização do Brasil exige não só a reconstrução da capacidade de planejamento do Estado, mas também a oferta de financiamento de longo prazo e a adoção de escolhas estratégicas capazes de enfrentar interesses consolidados.
“O processo de redemocratização do Brasil [após a ditadura militar] coincidiu com a queda da industrialização e foi marcado por uma transição tutelada, que manteve grande força das classes dominantes da época e incorporou a influência da política neoliberal ao Estado”, disse Santos, que já atuou como secretário de Governo na Prefeitura de Santos e chefe de gabinete em duas gestões na Prefeitura de São Paulo, nas secretarias de Adminitrações Regionais e Governo. De acordo com o presidente do Conselho Superior da FESPSP, a ampliação da democracia não resultou, de maneira substantiva, na redução das desigualdades de renda, patrimônio e condições de vida.
Já Aroaldo Silva defendeu que a política industrial seja articulada a uma estratégia de desenvolvimento que combine transição tecnológica, transição energética, geração de empregos de qualidade e fortalecimento dos territórios.
“Algumas cadeias estão obsoletas e já não conseguem, dentro do próprio setor, dar o próximo passo tecnológico. Por isso, será preciso fazer diagnósticos sobre o tecido industrial existente e identificar capacidades e possibilidades de atualização produtiva para cada um desses setores”, declarou o sindicalista.
Pedro Celestino, por sua vez, sustentou que a recuperação da indústria depende da reconstrução do papel do Estado e da retomada de setores estratégicos, como energia elétrica, petróleo e gás, tecnologia da informação, defesa e pesquisa nuclear.
Ao recuperar o pensamento do industrial Roberto Simonsen (1889-1948), um dos fundadores da FESPSP, Celestino destacou a importância atribuída à energia elétrica, à siderurgia e ao petróleo em uma política nacional de desenvolvimento. “Naquela ocasião, Simonsen dizia que só o Estado poderia nos dar essas condições”, afirmou.
Antonio Prado acrescentou que a reindustrialização deve integrar uma estratégia mais ampla de aumento da produtividade, enfrentamento das desigualdades e melhoria das condições de vida. “Discutir política industrial apenas a partir da perspectiva interna da indústria limita a compreensão do problema”, avaliou.
Reconstrução dos direitos trabalhistas
Realizado em 12 de maio, o terceiro encontro abordou a temática “Resgatar Direitos do Trabalho”. A atividade reuniu Clemente Ganz, professor e ex-diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE); José Eymard Loguercio, advogado, mestre em Direito e sócio do escritório LBS; além da Profa. Dra. Marilane Teixeira, economista e integrante do Conselho Superior da FESPSP.
Os palestrantes discutiram os desafios para a reconstrução dos direitos trabalhistas em um contexto marcado pela terceirização, pela pejotização, pela precarização das relações de trabalho e pelo avanço das plataformas digitais.
A professora Marilane Teixeira citou os dois maiores desafios para a defesa dos direitos trabalhistas no país. A pesquisadora declarou que o Estado precisa enfrentar os problemas impostos pela expansão da pejotização, da terceirização e pelo uso das plataformas tecnológicas, que vêm pressionando os salários para baixo e aprofundando a precarização das relações trabalhistas.
A doutora em Economia destacou ainda que sucessivas decisões do STF, favoráveis à flexibilização das relações de trabalho, têm contribuído para agravar ainda mais esse cenário.
Uma solução que já começa a ser discutida, acrescentou a docente, é a ideia de que o Estado precisa ser capaz de construir um programa de geração de ocupações sociais. “É uma proposta que representa uma alternativa concreta para enfrentar o desemprego estrutural, a precarização do trabalho e as desigualdades históricas do mercado de trabalho”, argumenta.
Eymard Loguercio reforçou que a crise dos direitos trabalhistas não pode ser enfrentada somente pela tentativa de recuperar o modelo jurídico construído durante o capitalismo industrial.
Na opinião do advogado, as transformações econômicas e produtivas exigem novas categorias jurídicas capazes de proteger trabalhadores que já não se enquadram integralmente no modelo clássico de emprego.
“Quando olhamos para o Supremo, para o padrão de julgamento que a Corte estabeleceu para as questões sociais e econômicas, vemos que o STF transita em uma lógica clara dos mercados, da prevalência da liberdade econômica sobre os direitos sociais e econômicos”, explicou o jurista.
Loguercio acrescentou que a proteção construída com base no trabalho industrial continua importante, mas se tornou insuficiente diante das novas formas de organização da produção.
Para Clemente Ganz, a ampliação de direitos depende do enfrentamento de um problema estrutural deixado em aberto desde a proclamação da Constituição Federal de 1988: o financiamento do Estado social brasileiro.
Na avaliação do professor, o país instituiu um projeto amplo de proteção social, mas não construiu uma base econômica progressiva e consistente para sustentá-lo. “Se mantivermos o que construímos de 1988 para cá, a viabilidade de ampliar direitos é zero. O que construímos com a Constituição Cidadã é inviável porque não cumprimos a tarefa que nos propusemos naquele momento: criar um Estado social.”
Ganz também analisou os impactos da reforma trabalhista de 2017. Para ele, a mudança ultrapassou o campo da legislação e provocou uma profunda reestruturação do sistema de relações de trabalho brasileiro.
Previdência e proteção social
O quarto encontro do ciclo discutiu o tema “Previdência: direito à dignidade”. A mesa foi mediada pelo jornalista Antonio Martins e reuniu os palestrantes Eduardo Fagnani, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e Rosa Maria Marques, Profa. Dra. de Economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Martins abriu o encontro destacando o papel da previdência social na redistribuição de renda e na construção de mecanismos coletivos de proteção. Para o jornalista, os ataques recorrentes à previdência estão relacionados à capacidade do sistema de promover alguma redistribuição da riqueza e de se contrapor à ideia neoliberal de que cada pessoa deve enfrentar individualmente os riscos sociais.
Fagnani, autor do livro “Previdência: o debate desonesto”, ressaltou a importância dos benefícios previdenciários na composição do orçamento das famílias brasileiras.
“Segundo o IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística], para cada pessoa idosa que recebe aposentadoria, há mais duas pessoas que, indiretamente, dependem daquela renda para sobreviver. Então, se há cerca de 40 milhões de benefícios diretos, indiretamente haveria cerca de 120 milhões de pessoas que recebem, direta ou indiretamente, esse benefício”, afirmou o economista.
O docente da Unicamp observou que o segurado da previdência frequentemente contribui para o sustento de filhos, netos e outros integrantes da família, o que comprovadamente amplia o alcance econômico e social dos benefícios.
Rosa Maria Marques acrescenta que os sistemas previdenciários desenvolvidos ao longo do século XX foram concebidos como mecanismos de reposição de renda diante de riscos como acidente, doença, maternidade, perda da capacidade laboral e aposentadoria.
Esse modelo, segundo a professora da PUC-SP, esteve historicamente associado à expansão do trabalho assalariado e formal, sobretudo no período posterior à Segunda Guerra Mundial. “Foi quando a proteção social se organizou em torno do trabalhador que tinha renda assegurada pelo emprego, mas que, em determinados momentos da vida, poderia perdê-la e necessitar de cobertura pública.”
Rosa Marques defendeu uma transição no modelo de financiamento da previdência brasileira. Na opinião da economista, as contribuições de empregados e empregadores não serão suficientes para sustentar o sistema, que deverá ampliar sua base tributária.
A professora também questionou a vinculação exclusiva entre contribuição individual e acesso aos benefícios. “Defendemos a dignidade da aposentadoria, mas o critério organizador da previdência é a meritocracia: quem contribui tem direito; quem não contribui, não tem.”
A cidadania, prosseguiu Rosa Marques, deve assumir papel central na definição do direito à proteção previdenciária.
Segurança pública centrada em direitos
O quinto encontro, realizado em 7 de julho, tratou do tema “Segurança Pública Cidadã: da situação atual ao que fazer”. A reunião examinou a construção de um modelo de segurança pública centrado em direitos diante do encarceramento em massa, da violência policial e dos elevados índices de mortes violentas.
A mesa foi mediada pelo advogado Antonio Funari Filho, presidente da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo. Participaram Benedito Mariano, ex-ouvidor das polícias paulistas e ex-secretário municipal de Segurança Urbana de São Paulo, e Natália Pollachi, diretora de projetos do Instituto Sou da Paz e mestre em Relações Internacionais.
Funari Filho recuperou a trajetória da Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo e ressaltou sua importância como instrumento de participação e controle social. “Muitos não reconhecem a importância do papel da ouvidoria, mas ela é uma conquista da sociedade”, disse o jurista.
Benedito Mariano defendeu uma atuação mais efetiva do poder público no enfrentamento das diferentes formas de violência. “Vivemos uma crise muito grave na segurança, e essa crise se reflete de várias maneiras em nossa sociedade. Contudo, a manifestação mais grave desse problema se traduz através do número de mais de 650 mil mortes violentas registradas no Brasil em uma década”, declarou.
Autor do livro “Segurança Pública, o calcanhar de Aquiles da esquerda e do campo democrático”, Mariano avaliou que o campo progressista elaborou e apresentou a maior quantidade de propostas de reforma do sistema, mas sempre encontrou dificuldades para transformá-las em políticas públicas permanentes.
Natália Pollachi trouxe os resultados da pesquisa Vote pela Paz, levantamento nacional realizado pelo Instituto Sou da Paz nas cinco regiões brasileiras. De acordo com a especialista, o estudo mostra que a insegurança interfere diretamente nas escolhas cotidianas da população.
“Ao menos 90% das pessoas ouvidas disseram que têm suas vidas afetadas diretamente pela falta de segurança pública. É um problema que influencia onde a pessoa vai morar, o preço do aluguel, a rua por onde vai passar e até se pode ou não tirar o celular do bolso para fazer uma chamada”, exemplificou.
De acordo com Natália, a sondagem também indica adesão menor do que a esperada a frases associadas ao endurecimento indiscriminado do combate ao crime. A diretora do Instituto Sou da Paz acrescentou que grande parte da população assume posições moderadas quando tem acesso a alternativas concretas para o enfrentamento da violência. Para ela, o resultado demonstra a importância de ampliar o conhecimento público sobre o funcionamento das instituições de segurança e sobre políticas de prevenção.
Com a disponibilização dos vídeos, a FESPSP amplia o acesso aos conteúdos de qualidade produzidos pelo Ciclo de Seminários Desafios para Outro Brasil e fortalece o debate público sobre desenvolvimento econômico, direitos sociais, políticas públicas e democracia neste ano eleitoral. Os próximos encontros, todos com transmissão ao vivo pelo canal da FESPSP no YouTube, serão realizados em 14/7 (Energia), 21/07 (Saúde) e 10/08 (Amazônia e Meio Ambiente). Acompanhe detalhes da programação nas redes sociais da FESPSP e do Outras Palavras.


