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Pesquisa da FESPSP traz novo retrato sobre o que pensam os jovens das periferias de SP

Por Stella Schrijnemaekers e Rafael Rodrigues da Costa

Pesquisas recentes têm buscado compreender as juventudes brasileiras. Nos últimos anos, ao menos três grandes levantamentos nacionais ou regionais foram publicados, abordando temas como a saúde mental dos adolescentes (PeNSE, do IBGE), a relação dos jovens com a política e a democracia (Juventudes: Um Desafio Pendente, da Fundação Friedrich Ebert Stiftung) e suas preocupações com o futuro (O que pensam os jovens brasileiros, do Centro Sou_Ciência da Unifesp).

 

Na última quinta-feira, 23 de abril, a Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo apresentou os resultados de mais um estudo sobre o tema. Ações de Cidadania e Direitos Humanos, parceria entre a FESPSP e a Secretaria de Justiça e Cidadania do Estado de São Paulo, ouviu 58 jovens das periferias paulistanas em seis grupos de discussão, organizados em três faixas etárias entre 15 e 29 anos. A pesquisa foi coordenada pela professora Stella Schrijnemaekers.

 

O recorte não é trivial. A pesquisa não se limitou ao corte etário: situou-o num contexto que articula território, classe, raça e gênero. Essa combinação contrasta com as análises geracionais genéricas — as gerações X, Y, Z e afins — e também com as leituras de marcadores sociais “puros”, que desconsideram o peso que a posição geracional exerce sobre vivências e expectativas. Tomada no singular, a juventude reduz-se a uma faixa de idade. Dadas as diferenças e desigualdades concretas que a atravessam, cabe falar em juventudes, no plural.

 

Um dos achados da pesquisa é o abismo entre o que esses jovens projetam para o futuro e o que vivem no presente. Quando perguntados sobre os próximos cinco ou dez anos, o desejo se concentra em estabilidade financeira, casa própria, emprego bem remunerado, possibilidade de aposentar-se cedo.

 

Os dados oficiais confirmam o desencontro. Entre adolescentes de 14 a 17 anos, a taxa de informalidade alcança 71,6%; entre jovens de 18 a 24, chega a 39,6%. A desigualdade etária se expressa também nos rendimentos: no quarto trimestre de 2025, ocupados de 14 a 17 anos recebiam R$ 972 em média; jovens de 18 a 24, R$ 1.951 — contra R$ 3.526 entre os de 25 a 39 anos e R$ 3.942 na faixa de 40 a 59. Ou seja: mesmo empregados, os jovens ocupam o segmento mais mal remunerado da estrutura ocupacional, o que compromete a construção de autonomia econômica e a perspectiva de futuro.

 

Por isso faz sentido a frase de uma das jovens entrevistadas pela pesquisa da FESPSP: os jovens da periferia, escreveu ela, são “pessoas invisíveis com muitos talentos”. Talento sem oportunidade converte-se em frustração e sofrimento. Não por acaso, a saúde mental atravessa todos os levantamentos recentes sobre a juventude. Os jovens ouvidos pela pesquisa foram explícitos ao dizer que ansiedade e depressão tornaram-se traços cotidianos. Sonhar sem poder realizar adoece.

 

A pesquisa expõe, portanto, um conjunto de pressões cruzadas sofridas pela juventude. De um lado, o peso das expectativas das gerações anteriores, que, segundo os entrevistados, os enxergam como “preguiçosos”, “desinteressados”, “mimizentos”, “nutellas”. De outro, o peso que eles depositam sobre si mesmos, que os leva a se enxergarem como “frágeis” e “doentes”. E, ao fundo, o abismo entre o sonho da estabilidade e a realidade do trabalho de subsistência, sem horizonte de emancipação.

 

Ainda assim, há um deslocamento na pesquisa que merece atenção. A política pública para a juventude nas periferias costumou operar com uma lógica de “resgate”, supondo que o problema do jovem fosse, em alguma medida, estar na periferia. A pesquisa da FESPSP aponta outra realidade. Os entrevistados relatam orgulho pelo bairro, sentem-se mais seguros ali do que no resto da cidade e identificam no território um senso de comunidade que lhes falta fora dele. O bairro não é o problema, e sim o que falta nele: bibliotecas, equipamentos culturais, parques cuidados, transporte seguro, iluminação adequada, reconhecimento das sociabilidades já existentes — bailes, batalhas de rima, rodas de samba — em vez de sua criminalização.

 

O que a pesquisa da FESPSP mostra é que as juventudes precisam ser consideradas no desenho das políticas públicas, não apenas por serem jovens, mas porque são eles os portadores da sociedade do futuro. Esse futuro, contudo, não se constrói sobre abstrações geracionais nem sobre projetos importados de outras realidades. Constrói-se no chão dos territórios onde essas juventudes vivem, sonham e resistem. O que está em jogo, afinal, é se seremos capazes de reconhecer suas demandas num projeto de transformação social, ou se deixaremos que suas inseguranças e temores sejam cooptados pelas forças regressivas que hoje ameaçam a democracia e a sociedade.

Veja aqui os resultados na íntegra.

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