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José Castilho conta como formar leitores pode fortalecer a democracia em entrevista à GloboNews

Em participação no programa “Diálogos com Mario Sergio Conti”, o filósofo e membro do Conselho Superior da FESPSP relaciona a formação de leitores a políticas públicas, cidadania e democracia

O professor e filósofo José Castilho Marques Neto, membro do Conselho Superior da FESPSP, analisou os desafios da formação de leitores no Brasil em entrevista ao programa “Diálogos com Mario Sergio Conti”, veiculado sexta-feira (17/7) pelo canal por assinatura GloboNews.

A conversa abordou a queda no número de leitores no país, a importância das políticas públicas de acesso ao livro e o papel da leitura na formação da cidadania e no fortalecimento da democracia. Confira um trecho da entrevista disponível no perfil da GloboNews no Youtube.

O ponto de partida do bate-papo foram os dados da sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, levantamento de âmbito nacional produzido pelo Instituto Pró-Livro. A sondagem apontou que o país perdeu mais de 10 milhões de leitores entre 2015 e 2024.

Pela primeira vez desde o início da série histórica, em 2001, os não leitores passaram a constituir a maioria da população pesquisada: 53% dos brasileiros não haviam lido nenhum livro, nem mesmo parcialmente, nos três meses anteriores ao levantamento. Confira a íntegra das sondagens na página eletrônica do Instituto Pró-Livro.

Ao comentar os resultados, Castilho afirmou que o desafio da leitura no Brasil não pode ser reduzido ao combate ao analfabetismo. Embora seja uma condição indispensável, a alfabetização não garante, por si só, que uma pessoa seja capaz de interpretar textos, estabelecer relações entre informações e desenvolver o pensamento crítico.

“Alfabetizar não significa, necessariamente, formar um leitor”, afirmou o professor titular aposentado da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (FCL-Unesp).

De acordo com Castilho, a formação de leitores depende do contato com livros, do incentivo familiar, da atuação de professores e bibliotecários e da existência de bibliotecas e outros espaços públicos de leitura.

O filósofo observou que o Brasil conseguiu reduzir o analfabetismo ao longo de sua história, mas ainda não assegurou a toda a população as condições necessárias para transformar a leitura em uma prática cotidiana.

“Se o Brasil compreender, finalmente, que a leitura e a formação de leitores críticos contribuem de maneira fundamental e inquestionável para a democracia, poderemos ter esperança de que essa cidadania se imponha”, comentou o educador.

Políticas públicas e direito à leitura

José Castilho foi um dos responsáveis pela implantação do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), iniciada em 2006. Ele atuou como secretário-executivo do plano entre 2006 e 2011 e novamente entre 2013 e 2016. A iniciativa foi articulada em quatro eixos: democratização do acesso; formação de mediadores; valorização simbólica da leitura; e apoio à economia do livro.

O trabalho desenvolvido no PNLL contribuiu para a formulação da Política Nacional de Leitura e Escrita, instituída pela Lei nº 13.696, de 2018. A legislação ficou informalmente conhecida como “Lei Castilho”, em reconhecimento à contribuição do filósofo para a construção de políticas dedicadas ao livro, à leitura, à escrita, à literatura e às bibliotecas.

Durante a conversa, o educador relacionou a queda no número de leitores ao enfraquecimento de políticas públicas capazes de ampliar o acesso aos livros e promover ações de formação em escala nacional.

Para o conselheiro da FESPSP, iniciativas realizadas por escolas, bibliotecas, organizações sociais e comunidades são fundamentais, mas somente uma política pública contínua pode assegurar que essas experiências alcancem diferentes regiões e grupos sociais. “Para transformar esse privilégio em um direito de todos, é necessária uma política pública”, disse.

Leitura e pensamento crítico

Outro tema abordado na entrevista foi o analfabetismo funcional. Castilho relacionou o problema à dificuldade de superar um modelo de ensino concentrado na decodificação mecânica das palavras, sem atenção suficiente à compreensão, à interpretação e à leitura literária. “Quando há cerceamento da leitura literária, alfabetizam-se pessoas, mas não se formam leitores”, avaliou.

Na análise do filósofo, a literatura permite que o indivíduo entre em contato com diferentes experiências e maneiras de compreender o mundo. O leitor não apenas recebe informações: ele as relaciona com seus valores, conhecimentos e vivências.

“Ler é entrar em diálogo com o outro. A leitura desperta o pensamento, o senso crítico, a imaginação, o sonho e a utopia”, resumiu.

Para o professor universitário, essa capacidade de interpretar, refletir e formular respostas próprias faz da leitura um elemento central da cidadania.

Leitura e democracia

O professor também falou sobre O Poder das Palavras e Outros Poderes, seu livro mais recente. A obra reúne reflexões sobre o papel da leitura na formação da cidadania e apresenta aspectos da trajetória histórica do livro e das políticas de leitura no Brasil.

Ao final da conversa, Castilho reforçou a relação entre a leitura e a participação democrática. “A questão da leitura é uma questão democrática. A democracia permite e incentiva a formação de leitores”, afirmou.

O doutor em filosofia também recordou uma frase da professora Eliana Yunes, referência nos estudos e nas práticas de formação de leitores no Brasil: “Quem lê pensa, e quem pensa não cala.”

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